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Eu quero uma janela sobre o mar.
É o que me falta para escrever.
De um infinito mar rumoroso
Que forme uma só linha com o céu.
Clarice Lispector, tenho certeza,
Tinha uma janela sobre o mar.
Foi dele que ela aprendeu
Correntes submersas sob mar plácido
Arrastando os desavisados
Para as profundezas dos livros e das almas.
Cecília Meireles também.
De um mar melancólico e pôr-do-sol
Foi que aprendeu o silêncio e a amplidão.
E um senso de liberdade tão suave que desconcerta.
Florbela Espanca, não há duvidas,
Tinha uma janela sobre o mar.
Desses com passionais penhascos
A se atirar com violência sem medida
Sobre pedras e corais.
Com uma janela sobre o mar
Também eu escreverei com místicas cadências,
Rimas e métricas formando sonetos de delicadeza
Inimaginável
Com uma janela sobre o mar
Textos em pentâmetro Jâmbico,
Tipo Shakespeare,
Contos, novelas e até os assombrosos romances policiais
Eu posso escrever
Com uma janela sobre o mar.
E não mais precisarei de validação intelectual.
Nem um verso para agradar.
Poemas de uma auto-segurança tão profunda
Só uma janela sobre o mar pode me dar.
Eu quero uma janela sobre o mar
É o que me falta pra escrever.