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Tô querendo dar um tempo nesta falta de tempo.
Se pra tudo tem seu tempo
Eu quero um tempo fora do tempo.
Eu quero a pausa do relógio na parede.
Por que falta, falta mesmo, falta tempo.
Falta tempo para amadurecer um carinho, uma amizade, uma manga.
Falta tempo para uma refeição completa,
Para uma soneca.
E tempo para arrumar a cama, lavar a louça, ouvir um jazz.
Se cada coisa tem seu tempo
Quero o meu de responder uma carta,
Desfiar uma lembrança e tempo de improvisar,
...principalmente tempo de improvisar...
E está faltando tempo de me importar
Com o aquecimento global
Com as guerras nucleares
Com os moradores de rua
E com as cigarras que diminuem a cada ano em Brasília.
E me falta tempo pra reescrever meus poemas,
De pensar sobre o hábito de nunca ter tempo para.
Pra fazer amor à tarde já não tenho tempo há tempos.
Nem tempo para o segundo tempo.
Na realidade sou égua trotando de viseira
Pensando apenas no próximo percurso
Na próxima atividade
No próximo dia.
Falta tempo pra poesia.
Não se envolva,
Mantenha uma distância entre você e tudo o que existe.
Uma fina camada de proteção.
Fuja dos olhares das crianças e dos moradores de rua.
Não, não se envolva.
Ignore o angustioso cerrado desmatado.
Aceite estoicamente
Os passos descuidados sobre a grama que grita,
Não perceba a grosseria do cotidiano
E se afaste de qualquer ternura desavisada.
Pois como é indispensável que você não se envolva,
Conheça as geografias do corpo, mas não sinta.
Sinta a escala das emoções, mas NÃO SE ENVOLVA.
Envolto, não ame...
E devagar se afaste assim de toda poesia.