Sussurrando Antigos Fragmentos Obscurecidos

Safo foi a única voz feminina na literatura da antiga Grécia. Veio massacrada, como tantas mulheres que buscaram autonomia ao longo dos séculos. Uma voz perdida no tempo, e eu, mulher, vim sussurrar os antigos fragmentos obscurecidos. Laura Moreira

Sussurrando Antigos Fragmentos Obscurecidos

Safo foi a única voz feminina na literatura da antiga Grécia. Veio massacrada, como tantas mulheres que buscaram autonomia ao longo dos séculos. Uma voz perdida no tempo, e eu, mulher, vim sussurrar os antigos fragmentos obscurecidos. Laura Moreira
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Terra Blog

23.05.09

Regras do jogo

Antes de conhecer as regras do jogo
Eu – ignorante-
Jogava o amor com as minhas próprias regras
E me jogava

Acreditando sempre
Livre, espontânea
Na recriação do amor

Entidade que precisa de carne para existir
O amor só existe entre

E de repente as caretices me alcançaram
E pelos destroços do meu coração partido
Me vejo observando convenções que nunca dei atenção
Fazendo concessões

Se é tão importante a contenção numa mulher,
Eu me calo, falo baixo, cruzo as pernas
Se é preciso deixar que ele aja primeiro
- Deus me livre que se sinta ameaçado-
Eu cedo e muito donzela
Espero o telefonema, o convite

E nego sempre sexo no primeiro encontro
- Ai, como me cansa esperar -
Já me vejo outra mulher

E direi que não, nunca tive experiências homossexuais
E direi que não, nunca me entreguei aos encantos do sexo casual
Do sexo em lugares públicos
Do sexo
Qualquer homem que estiver na minha cama será sempre o primeiro ou coisa assim
E protestarei contra a velocidade das coisas
Corarei com as indecências que conheço de cor
E aguardarei pacientemente a ligação do dia seguinte

É que só negando o sexo uma mulher tem passe livre para o amor
É que só vale uma mulher sem passado, nascida ontem
E eu começo a me cansar de fazer as coisas sempre diferente
De enfrentar resistências
De carregar bandeira
Quando o que quero é a ternura dentuça do Manuel Bandeira

O problema é que sem aquela espontaneidade
Eu perco um pouco a alegria
E amarrada em regras que não são as minhas
Perco cada vez mais a vontade de amor
  • criado por  Laura Moreira criado por Laura Moreira
  • Postado em 10:14:49

08.05.09

declaração

Disse que me amava.
Nunca me viu florir ou chorar.
Disse que me amava.
E nunca tropeçou nos desertos dos meus silêncios.
E não conhecia o gosto do meu sexo.
E não conhecia espelhos refletindo montanhas de nada.
Disse que me amava.
Olhos fixados na juventude do meu colo
Dizendo que me amava.
  • criado por  Laura Moreira criado por Laura Moreira
  • Postado em 20:18:57

Enjaulada

Sabor da noite na boca
O sangue pelos pêlos
A lama úmida de patas
Abro os olhos:
Grade
Fecho os olhos:
Desertos e florestas prolongando-se sem fim

Esgotei todos os rugidos e ruídos
Na tentativa de acordar os deuses
A terra se calou
Com selvageria desejei os campos novamente
Tudo o que vejo é grade
Meu olhar derretido ecoa nas estrelas.
  • criado por  Laura Moreira criado por Laura Moreira
  • Postado em 20:09:48

03.04.09

Marítimo


Eis que o mar testemunhou todas as eras
Dos tempos em que tudo era lava e chama
E os continentes, os únicos que nadavam

Eis que viu a humanidade nascer
Seu ronco profundo acordou os homens na noite escura
Nunca, nunca esqueceram.

E quando a interrogação se fez presente
Desejos de aventura, percursos na imensidão
Os homens tremeram, corações acelerados

O mar inteiro cantava

O mar levou cordões, aceitou oferendas
E devolveu destroços de navios sem vida
Aceitou portos e levou mortos
Quilômetros de praias esquecidas

O mar guardou segredos
Num pacto mais velho que o mundo
Chamou os homens para si
Nossas águas se misturando à saliva salgada do mar

Também a mim fez seus apelos
Despertando meus desejos de mulher
Chorou comigo dor de amor
Levou na corrente meu medo de futuro
E outra vez, maré alta, quase me matou

Só ele conhece a minha tristeza
A minha e a de uma infinidade de piratas mortos
  • criado por  Laura Moreira criado por Laura Moreira
  • Postado em 18:44:09

15.03.09

da natureza dos muros


                                                       “Amo a hera, que entende a voz do muro.”
                                                        Florbela Espanca

É da natureza dos muros essa dureza, essa solenidade
É da natureza dos muros esse escondido, esse segredo
E essa vontade que dá na gente de ver o outro lado
E de fazer o muro sorrir
E de ganhar este tesouro implícito.

Tesouro este que sabe deus o que será
Um quintal sujo, cheio de frutas
Uma piscina de águas amarelas
Ou ainda uma casa abandonada
Ou ainda um poço estagnado.

Ou, quem sabe, todos os tesouros da infância
E, se for em Minas, um forno de barro
Para assar pão de queijo e histórias de fantasma.

Quantas delícias contém um muro
Quantas vontades um muro velho desperta
Em mim, uma vontade de ser hera
De acarinhar paredes duras
De aumentar frestas e florir em rachaduras
Só os muros velhos me interessam.

  • criado por  Laura Moreira criado por Laura Moreira
  • Postado em 14:09:42