Safo foi a única voz feminina na literatura da antiga Grécia. Veio massacrada, como tantas mulheres que buscaram autonomia ao longo dos séculos. Uma voz perdida no tempo, e eu, mulher, vim sussurrar os antigos fragmentos obscurecidos. Laura Moreira
Safo foi a única voz feminina na literatura da antiga Grécia. Veio massacrada, como tantas mulheres que buscaram autonomia ao longo dos séculos. Uma voz perdida no tempo, e eu, mulher, vim sussurrar os antigos fragmentos obscurecidos. Laura Moreira
Antes de conhecer as regras do jogo Eu – ignorante- Jogava o amor com as minhas próprias regras E me jogava
Acreditando sempre Livre, espontânea Na recriação do amor
Entidade que precisa de carne para existir O amor só existe entre
E de repente as caretices me alcançaram E pelos destroços do meu coração partido Me vejo observando convenções que nunca dei atenção Fazendo concessões
Se é tão importante a contenção numa mulher, Eu me calo, falo baixo, cruzo as pernas Se é preciso deixar que ele aja primeiro - Deus me livre que se sinta ameaçado- Eu cedo e muito donzela Espero o telefonema, o convite
E nego sempre sexo no primeiro encontro - Ai, como me cansa esperar - Já me vejo outra mulher
E direi que não, nunca tive experiências homossexuais E direi que não, nunca me entreguei aos encantos do sexo casual Do sexo em lugares públicos Do sexo Qualquer homem que estiver na minha cama será sempre o primeiro ou coisa assim E protestarei contra a velocidade das coisas Corarei com as indecências que conheço de cor E aguardarei pacientemente a ligação do dia seguinte
É que só negando o sexo uma mulher tem passe livre para o amor É que só vale uma mulher sem passado, nascida ontem E eu começo a me cansar de fazer as coisas sempre diferente De enfrentar resistências De carregar bandeira Quando o que quero é a ternura dentuça do Manuel Bandeira
O problema é que sem aquela espontaneidade Eu perco um pouco a alegria E amarrada em regras que não são as minhas Perco cada vez mais a vontade de amor
Disse que me amava. Nunca me viu florir ou chorar. Disse que me amava. E nunca tropeçou nos desertos dos meus silêncios. E não conhecia o gosto do meu sexo. E não conhecia espelhos refletindo montanhas de nada. Disse que me amava. Olhos fixados na juventude do meu colo Dizendo que me amava.
Sabor da noite na boca O sangue pelos pêlos A lama úmida de patas Abro os olhos: Grade Fecho os olhos: Desertos e florestas prolongando-se sem fim
Esgotei todos os rugidos e ruídos Na tentativa de acordar os deuses A terra se calou Com selvageria desejei os campos novamente Tudo o que vejo é grade Meu olhar derretido ecoa nas estrelas.
Eis que o mar testemunhou todas as eras Dos tempos em que tudo era lava e chama E os continentes, os únicos que nadavam
Eis que viu a humanidade nascer Seu ronco profundo acordou os homens na noite escura Nunca, nunca esqueceram.
E quando a interrogação se fez presente Desejos de aventura, percursos na imensidão Os homens tremeram, corações acelerados
O mar inteiro cantava
O mar levou cordões, aceitou oferendas E devolveu destroços de navios sem vida Aceitou portos e levou mortos Quilômetros de praias esquecidas
O mar guardou segredos Num pacto mais velho que o mundo Chamou os homens para si Nossas águas se misturando à saliva salgada do mar
Também a mim fez seus apelos Despertando meus desejos de mulher Chorou comigo dor de amor Levou na corrente meu medo de futuro E outra vez, maré alta, quase me matou
Só ele conhece a minha tristeza A minha e a de uma infinidade de piratas mortos
“Amo a hera, que entende a voz do muro.” Florbela Espanca
É da natureza dos muros essa dureza, essa solenidade É da natureza dos muros esse escondido, esse segredo E essa vontade que dá na gente de ver o outro lado E de fazer o muro sorrir E de ganhar este tesouro implícito.
Tesouro este que sabe deus o que será Um quintal sujo, cheio de frutas Uma piscina de águas amarelas Ou ainda uma casa abandonada Ou ainda um poço estagnado.
Ou, quem sabe, todos os tesouros da infância E, se for em Minas, um forno de barro Para assar pão de queijo e histórias de fantasma.
Quantas delícias contém um muro Quantas vontades um muro velho desperta Em mim, uma vontade de ser hera De acarinhar paredes duras De aumentar frestas e florir em rachaduras Só os muros velhos me interessam.